Preconceito racial: como criar filhos que respeitam os outros, independente da cor

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É o primeiro dia na nova escola de Rafael, de seis anos. 

Ao deixá-lo na porta da sala de aula, você percebe que há apenas três crianças negras.

Os únicos funcionários negros que você vê no rápido trajeto até a sala são o porteiro e a moça da limpeza.

Esse cenário reflete o Brasil, um dos países mais desiguais do mundo.

Como pai/mãe, você quer que o Rafael trate as crianças negras da mesma forma que trataria uma criança branca – com respeito, carinho e admiração.

Esse artigo traz algumas dicas sobre uma criação livre de preconceitos raciais – e também algumas dicas para aprimorar o conhecimento dos papais sobre esse assunto.

Por que é importante falar sobre racismo desde cedo?

Não existem crianças racistas. Os pequenos são puros de pensamentos. Para eles, pessoas pretas não são menos capacitadas ou inteligentes que pessoas brancas. 

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Nelson Mandela

Essa é uma construção que vem com o tempo – e a criação dos pais é essencial para manter essa noção de equidade na mente dos pequenos. 

Na sociedade atual, não basta clamar por igualdade. Sim, devemos ensinar que todos os seres humanos são iguais – não menos dignos de amor e respeito devido à cor da pele. 

Porém, precisamos lutar por equidade. Justamente devido às diferenças de cor da pele, classe social e gênero, entre outros, os brasileiros não têm oportunidades iguais. 

A igualdade é a falta de diferenças. A equidade é o senso de justiça – ações que têm o objetivo de atingir a igualdade.

Quanto antes as crianças aprenderem a respeitar as diferenças entre as pessoas, mais conscientes estarão sobre seus próprios privilégios.

Em casa, é papel dos pais dar esse primeiro passo em direção à conscientização da criança. Manter a mente dos pequenos aberta às diferenças e atenta ao devido respeito que deve ser dispensado a qualquer tipo de pessoa.

Para quem não sabe nem por onde começar, o livro “Pequeno manual antirracista”, da ativista Djamila Ribeiro, é uma boa pedida. 

Afinal, para ensinar, é preciso que os papais e mamães estejam também dispostos a aprender e a desconstruir processos de pensamento já estabelecidos, certo?

5 dicas para os pais criarem filhos antirracistas

1. Dar o exemplo 

Vamos bater bastante nessa tecla porque é, de fato, a mais importante.

Você é o espelho do seu filho! Não há como esperar que a criança seja antirracista se você cometer atitudes ou falar coisas racistas. 

Tome muito cuidado com o que você fala – “brincadeiras” e “piadinhas”, que podem parecer inofensivas para você, são muito dolorosas para quem as escuta, e se ouvidas pela criança, serão repetidas. 

Neste caso – e quase sempre -, as atitudes valem muito mais do que palavras.

2. Letramento racial

Converse muito, muito sobre isso. 

Conversas genéricas sobre discriminação são uma boa pedida, aproveitando situações do dia a dia para introduzir o assunto.

É importante que a criança compreenda que a sociedade é racista, e que as crianças brancas precisam refletir sobre o papel delas na mudança desse cenário. 

3. Diversidade na prática

Mesmo que o seu filho seja branco, é interessante mostrar a ele algumas referências negras – bonecos e  personagens de desenho, por exemplo – e brincadeiras que abordem o tema da diversidade

Caso a criança seja negra, essa inclusão é ainda mais importante para que se sinta representada no mundo onde vive.

4. Honestidade

Para ensinar crianças sobre racismo e formá-las como crianças e futuros cidadãos anti racistas, é preciso franqueza. 

Refira-se aos pretos como eles são: pretos. Não tente usar um sinônimo como “moreninho”, por exemplo.

Se a criança for testemunha de uma atitude racista, não minimize nem tente esconder o que aconteceu. 

Seja franco e aberto. 

Ensine os pequenos a terem respeito pelas diferenças das pessoas – altura, peso, cor da pele, cor do olho, tipo de cabelo. 

Sempre ressalte que as pessoas são diferentes e que isso é enriquecedor. 

As diferenças são o que nos tornam únicos!

5. Convivência 

Com adoção de políticas afirmativas cada vez mais enraizadas, é comum que crianças de diferentes classes sociais e raças estudem na mesma escola e sejam colegas. 

Aqui, é preciso que você também abandone seus próprios preconceitos: não é porque a criança vem de uma família mais necessitada que a sua que ela não deve se misturar com o seu filho.

Esse tipo de convivência é muito enriquecedor, para todas as partes. Para as crianças mais privilegiadas, é uma oportunidade de perceberem que existe um mundo bem diferente fora das paredes da própria casa.

Ah, e não precisa forçar uma aproximação: as crianças naturalmente procuram umas às outras. 

Leia Também: 8 Lições Que Podemos Aprender Com os Filhos

10 obras para consumir com os filhos e combater o preconceito

1. Meninas negras – Madu Costa e Rubem Filho (ilustrações)

Parte da coleção Griot Mirim, “Meninas Negras” trabalha a identidade afrodescendente na imaginação infantil. De modo lúdico, reforça a autoestima da criança a partir da valorização dos antepassados, da cultura e da cor.

2. Amoras – Emicida 

Em seu primeiro livro infantil, o cantor e artista Emicida cria um rap para evidenciar a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre.

3. Meu crespo é de rainha – Bell Hooks

meu crespo é rainha

Originalmente publicado em forma de poema, o livro apresenta às meninas brasileiras diferentes tipos de penteados e de cortes de cabelo de forma positiva e alegre. 

É um livro para ser lido em voz alta, indicado para crianças maiores de três anos de idade – e também a todas as mulheres – para que se orgulhem de seus cabelos. 

4. Pantera negra

Indicado para crianças mais velhas, por volta dos 10 anos, o filme da Marvel traz um super-herói negro, o príncipe de Wakanda, T’Challa, que se junta aos Vingadores. 

Cerca de 95% dos atores que participam do filme são negros, e o filme chamou atenção para a importância da representatividade. 

A obra foi a maior estreia da história de um diretor afro-americano e a maior estreia de um filme estrelado predominantemente por atores negros. 

5. A Princesa e o Sapo

https://www.youtube.com/watch?v=A0WhUPp0BYU

A primeira princesa negra da Disney sonha em abrir o próprio restaurante. Quando ela conhece o príncipe Naveen, transformado em sapo, seus planos mudam de rumo. O filme se destaca também pela representatividade – meninas negras também podem se ver como princesas graças à Tiana. 

6. O Ônibus de Rosa – Fabrizio Silei e Maurizio A.C. Quarello

o onibus rosa

Nessa história, um senhor conta ao neto a história da segregação racial nos Estados Unidos ao levá-lo a um museu na cidade de Detroit.

7. O Pequeno Príncipe Preto – Rodrigo França

o pequeno principe preto

Em uma adaptação da famosíssima obra do francês Antoine de Saint-Exupéry, o ativista e escritor Rodrigo França conta a história do Pequeno Príncipe Preto, que vive em um minúsculo planeta na companhia da árvore Baobá. 

8. Menina bonita do laço de fita – Ana Maria Machado

A escritora Ana Maria Machado, uma das maiores referências brasileiras em literatura infantil, conta a história de uma menina negra que desperta a atenção de um coelho branco. O coelho quer ter uma filha preta como a menina e quer saber qual o segredo da menina para que isso aconteça. 

9. Jeremias: Pele – Maurício de Sousa Produções

jeremias pele

O personagem Jeremias, da Turma da Mônica, lida pela primeira vez com o preconceito por causa da cor da pele. Apesar de ser uma leitura essencial para crianças negras, também é extremamente válida para crianças brancas. 

10. O menino marrom – Ziraldo

o menino marrom ziraldo

O reconhecidíssimo Ziraldo conta a história de duas crianças – uma negra e uma branca – que não vêem essas diferenças como um empecilho para construírem uma bela amizade.

Existe uma idade certa para falar sobre o tema?

Mesmo quando os adultos são esclarecidos e têm consciência da importância de lutar contra o racismo, a maneira de abordar o tema com os filhos ainda é um mistério. 

Nunca é cedo demais para falar sobre racismo com as crianças. 

Mesmo pequenas, as crianças são capazes de captar os padrões da sociedade – podem perceber, por exemplo, a maneira como os negros são tratados e percebem as diferenças, ainda que sutis, da maneira como são distribuídos esses papéis na sociedade.

Ao ficarem calados, os pais e as mães podem acabar, mesmo que sem querer, reforçando a ideia de que é assim que o mundo deve ser.

Por isso, os responsáveis pela educação dos pequenos precisam se manifestar. 

O racismo estrutural está presente e é silencioso. Há pessoas que jamais pararam para refletir sobre as próprias atitudes e privilégios. 

O primeiro passo você já deu: se informar sobre o assunto!

Agora, é hora de espalhar esses ensinamentos e levá-los às crianças!

Já pratica uma criação antirracista na sua casa? Conte para nós a sua experiência!

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