Machismo na criação dos filhos: 7 cuidados para não criar crianças machistas

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Ainda hoje, muitos pais e mães, mesmo sem querer, reforçam um comportamento de machismo na criação dos filhos.

Em pequenas atitudes do dia a dia, como piadas, frases, divisão de tarefas e até escolha das roupas, os pais naturalizam esses padrões preconceituosos e estimulam hábitos que incitam a violência contra a mulher.

Os dados do Monitor da Violência são assustadores: uma mulher é morta pelo fato de ser mulher (feminicídio) a cada sete horas no Brasil.

A Organização Mundial da Saúde nos coloca em 5° lugar entre os países que mais matam mulheres, com uma taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres.

Para chamar a atenção para esse tipo de atitude, modificar a realidade e projetar um futuro mais igualitário, listamos 7 cuidados para não criar crianças machistas:

1) Cuidados com frases machistas no dia a dia

frases machistas

Já reparou que quando queremos que alguém seja forte e corajoso, nós dizemos: “seja homem!” e quando queremos insinuar que alguém é fraco e medroso, falamos “é uma mulherzinha!”?

Ou então: “só podia ser mulher”, “lugar de mulher é na cozinha”, “mulher não nasceu para comandar”, “mulher fala demais”. Vale para os meninos também: “meu filho vai ser pegador”, “isso é coisa de macho”, “fala que nem homem”, e por aí adiante.

Expressões como essas reforçam a ideia de que mulheres são seres inferiores aos homens.

Meninos e meninas, ao ouvirem frases desse tipo, repetidas todos os dias, aprendem a se sentirem, serem e se comportarem de acordo com as expectativas do seu gênero – “mulher tem de saber cuidar da casa e dos filhos”; “homens tem de ganhar muito dinheiro e sustentar a família”.

As crianças acabam sofrendo por causa desses estereótipos machistas, que nada mais são do que expectativas depositadas nelas. Com isso, são privadas do desenvolvimento de todas as suas habilidades, porque são estimuladas pela metade. 

Que tal reformular essas frases? 

Que tal investir em falas motivacionais, ao invés de colocar filhos dentro de “caixinhas” e deixá-los livres para evoluírem e explorarem o seu protagonismo?

Independentemente de ser menino ou menina, troque “seja homem!” por “seja você mesmo!” e “é uma mulherzinha!” por “vença seus medos, acredito em você”. 

Tenha certeza que se filho crescerá menos machista e muito mais autoconfiante, contribuindo para um mundo menos violento.

2) Divisão de tarefas entre “coisa de menino” e “coisa de menina”

Entre os pontos de alerta sobre machismo na criação dos filhos está a divisão de tarefas.

Dividir tarefas e brincadeiras em “coisa de menino” e “coisa de menina” gera efeitos para a vida toda. 

A ONG Plan Brasil realizou uma pesquisa com meninas de 6 a 14 anos em todas as regiões do país e descobriu uma imensa diferença na distribuição das tarefas domésticas. 

Para 84,1% delas é delegada a função de arrumar a cama, contra 11,6% deles. Entre as meninas, 76,8% lavam a louça e 65,6% limpam a casa. Outra tarefa predominantemente destinada às meninas é a de cuidar dos seus irmãos: 34,6% são responsáveis por essa função, contra 10% dos meninos.

Um filho criado dessa forma vai conseguir ser independente no futuro e morar sozinho? 

Ou a filha que cresce sob essa perspectiva vai saber dividir as tarefas e ter tempo para si própria quando for adulta? 

Muito dificilmente. 

A pedagoga e educadora sexual Caroline Arcari, em entrevista ao Huffpost, resume bem: “não precisa do órgão genital para fazer tarefas domésticas”. 

Segundo ela, é importante deixar que os meninos desenvolvam empatia, sensibilidade e permiti-los chorar, assim como deixar a menina jogar futebol, porque fortifica a personalidade delas em direção à igualdade.

E se o seu filho fizer “coisas de menina” ou sua filha fizer “coisas de menino” eles não vão se tornar homossexuais (e se os tornassem, também não seria um problema). 

As brincadeiras, tarefas ou estilo de roupa não influenciam em nada na sexualidade das crianças. Ou elas nascem homossexuais ou não. 

Portanto, mais uma vez, crie seu filho sob preceitos de igualdade e de empatia. Deixe- o cozinhar, lavar louça, limpar o pátio e carregar o móvel pesado independentemente do sexo. Além de mais tolerante, ele será mais feliz e desenvolvido.

3) Rosa de menina, azul de menino

“É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa”, foi o que disse a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a pastora evangélica Damares Alves, após seu discurso de posse.

A frase gerou uma polêmica enorme nas redes sociais e a hashtag #cornãotemgênero se tornou um dos principais assuntos do Twitter em janeiro de 2019.

Conforme o professor de Psicologia da Universidade do Novo México, Marco Del Giudice, que analisou uma base de dados de milhões de livros, publicados a partir de 1880, as referências a “rosa para meninas” começaram a ser mais abundantes a partir do final da Segunda Guerra Mundial, na década de 1940.

Ou seja, esse e outros simbolismos de gênero, como laços e corações para meninas, aviões e bolas para meninos, não são “naturais”, mas é uma construção social recente. Uma das teorias é que o padrão teria sido criado pela indústria da moda americana.

Que tal optar pela praticidade e conveniência das peças de roupa com cores neutras ou então deixar seu próprio filho escolher o que quer vestir, a estampa de cadernos que preferir e assim por diante?

4) O papel do pai

o papel do pai

O documentário A máscara em que você vive (The mask you live in), da Netflix, começa com o relato de um homem. Ele conta que, quando pequeno, o pai dele o arrastava pelos braços até o porão, levantando as mãos e o ensinando a dar golpes e socos.

O “ensinamento” era acompanhado de frases como: “Seja homem, pare de chorar. Aprenda a dominar e controlar as pessoas e as situações”. O menino saía dessa situação emocionalmente devastado, achando que não era homem o suficiente. 

O ponto aqui é o papel do pai na educação dos filhos – e de filhas também. Desconstruir o comportamento machista das crianças não é tarefa apenas das mães.

Uma criação na qual se ensine que os meninos podem, sim, chorar e demonstrar suas emoções, assim como meninas são fortes e valentes e podem acompanhar seu pai em tudo que ela desejar.

E o papel do pai não está apenas em conversar e mostrar que filhos e filhas podem ser quem quiserem. 

Ele deve dar o exemplo, começando por promover uma relação com sua esposa de amor, respeito, parceria, cumplicidade e divisão de tarefas tanto domésticas como de cuidados com os filhos de forma equilibrada. 

A vivência desse tipo de relação entre o casal faz com que se construa no aprendizado dos filhos uma relação não machista no contexto familiar.

5) Em casos de atitude machista, posicione-se

“Ah, ele estava só brincando”. “É só uma piada”. “Foi sem querer”. Justificativas como essas não podem mais ser aceitas.

É preciso nos conscientizarmos de que o machismo está enraizado e faz parte da criação da maioria dos adultos de hoje em dia, mas que ele não deve ser perpetuado.

Para mudar essa realidade, é preciso, primeiro, saber que o machismo é cultural e, portanto, passível de controvérsias e questionamentos. 

Mas não devemos jamais aceitar qualquer atitude preconceituosa como natural.

Ao sinal de uma frase ou comportamento machista, seja de um amigo, familiar e, principalmente, de seu filho, é necessário posicionar-se. Deixar claro que não é aceitável e que, mesmo de brincadeira, não deve ser dessa forma.

Somente assim vamos interromper a cultura de machismo na criação dos filhos e formarmos uma geração mais igualitária e justa.

6) Criação de heróis ou donzelas

Numa criação machista, meninos são inseridos na cultura dos “heróis”, dos “campeões”, dos “guerreiros” e em tudo que tiver embutidos os valores de força, coragem, agressividade e violência.

Já as meninas são criadas com a cultura das “princesas” e tudo mais que for caracterizado por beleza, vulnerabilidade, fragilidade e delicadeza,

Qual o efeito disso? 

Os garotos acabam vendo a si mesmos como o herói que salva o dia, aquele a quem todos servem. 

As garotas são criadas para serem vaidosas, prendadas, domésticas e mães através dos brinquedos que são destinados a elas (bonecas, conjuntos de cozinha e imitações de produtos de beleza).

Com isso, criamos homens que não aprenderam que devem ter autocuidado, cuidar dos filhos e da casa, porque percebem que não precisam se preocupar com essas coisas já que sempre tem uma mulher fazendo isso por eles. 

Uma forma de mudar esse cenário é começar pelos brinquedos. Dê bonecas ao seu filho, dê bonecos de super-heróis à sua filha e vice-versa. Ensine a ambos os valores que todo ser humano deve cultivar.

7) Incentive amizades com ambos os gêneros

amizade com outro gênero

Outra boa maneira de cultivar valores mais igualitárias em seus filhos é incentivá-los a brincar com crianças de ambos os sexos. 

Em um estudo norte-americano que analisou padrões de brincadeiras de crianças em idade pré-escolar, pesquisadores descobriram que quanto mais crianças brincavam com crianças de seu próprio gênero, mais estereotipado seu comportamento se tornava.

Desse modo, os meninos que brincavam principalmente com outros meninos, começaram a brincar de forma mais vigorosa e ativa, enquanto as meninas que brincavam com outras meninas começaram a brincar de forma menos agressiva. 

“Incentivar amizades mistas é uma das coisas mais importantes que os pais (e professores) podem fazer”, afirmou Carol Martin, uma das autoras da pesquisa.

Veja também: Amizade na infância: o que pais precisam saber sobre o assunto.

Quando meninas e meninos interagem entre si, aprendem um sobre o outro e suas semelhanças, com isso, ficam mais confortáveis ​​um com o outro. O que gera um tipo de “resiliência social”, permitindo que eles lidem com uma variedade de experiências de forma muito mais natural.

Respeite a individualidade do seu filho

Ouça o que seus filhos têm a dizer sem julgamento de valor. Respeite seus desejos e procure entender o que os move e os deixa felizes. 

Seja exemplo. Trate outros bem e com generosidade, acolha ao invés de afastar, aceite a diferença ao invés de ir contra.

Respeitar e deixar que seu filho viva as experiências desde a infância sem restrições ou imposições de gênero vai fazer toda a diferença na criação do seu filho não somente com relação ao machismo, mas de qualquer amarra que possa machucar a eles ou aos outros.

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